CRENÇAS, CRENDICES E SUPERSTIÇÕES.

Por – Hiroshi Uyeda

Yo no creo em brujas, pero que lashay, lashay. O surradíssimo adágio espanhol é repetido em todas as épocas e lugares, embora seja associado às tradições de povos mais primitivos. 

Conceituam-se:
– crença: ação de crer como verdade ou na possibilidade de ser.
– crendice ou superstição: ilusão, presságio infundado, algo sobrenatural.
Estão onipresentes no cotidiano dos brasileiros, difundidos em mídias, horóscopos, terapias, usos e costumes populares.

Quem nunca ouviu recomendações para:

– não misturar leite com manga. Era morte certa. Tornou-se tabu e até hoje é respeitado, exceto pelas lanchonetes. Quase mito, originou-se nos tempos coloniais. Os senhores de engenho para evitar roubo de mangas nos pomares e o consumo de leite pelos escravos criaram essa crendice.

– cobrir os espelhos para não atrair raios. Era uma correria à procura de panos e lençóis para cobrir os espelhos da casa, no início das chuvas. A crendice pode ter surgido pelo fato de os espelhos terem fina camada de metal polido. Mas não o suficiente para atrair raios. Cercas de arame, árvores altas e edificações, por suas dimensões,são as mais propensas.

– não apontar com o dedo para uma estrela faz nascer verruga. Essa crendice surgiu com o intuito de as famílias judias protegerem seus filhos no período da Inquisição, no século XV, na Europa. As crianças procuravam e apontavam com o dedo para o céu, nas sextas feiras, à noite, na tentativa de descobrir qual das estrelas permaneceria até a manhã seguinte, sábado, dia sagrado para o Judaísmo. O gesto denunciaria as suas origens. 

– arrancar um fio de cabelo branco faz nascer dois no lugar. Muita gente não se arrisca em arrancar os primeiros fios brancos com receio de os duplicarem. Dermatologistas afirmam tratar-se de crendice, pois os fios ficam brancos naturalmente, em decorrência de envelhecimento fisiológico, por vezes prematuramente. 

– carregar a noiva nos braços para o quarto nupcial garante felicidade. Hábito dos antigos romanos para evitar presságios funestos. Crença ou não, o hábito é seguido até os dias atuais. Trata-se de um simbolismo. A noiva, nos braços do noivo, deixa de pisar na soleira da porta do quarto conjugal. Esse privilégio é exclusivo para a mais casta das deusas, Vesta e por esta pode ser castigada.

Muitas outras podem ser acrescentadas: não comer sementes de melancias para não brotarem na barriga; colocar vassoura atrás da porta para espantar visitas; ferradura para evitar mau olhado; pegar buquê de noiva é ótimo presságio de ser a próxima a se casar; cair garfo no chão é sinal de visitas.

Crenças, crendices e superstições são vestígios do passado, no qual o ser humano tinha uma visão ilusória e mágica do mundo. Levava-se muito a sério as questões sobrenaturais causadores de interferências em suas vidas. Isso acontecia em Bela Vista desde os primórdios. Mas, muitos ainda mantêm ferraduras na parte superior das portas, como, também, apontam para estrelas cadentes e formulam pedidos, conservam chifres de boi em ponta de pau, no quintal, para espantar demônios e um copo cheio de sal grosso, no canto da sala, para trazer sorte.

Em Bela Vista, nos anos 60, nenhuma pessoa morria sem vela na mão, tamanha a superstição de o demônio aparecer e levar a alma. Crianças se morressem sem batismo iam direto para o inferno. Varrer a casa de noite, deixar tesoura aberta, barbear-se depois de comer, andar de costas, trabalhar nos domingos, saltar por cima de uma criança, também eram evitados, pois, poderiam atrair desgraças, olho gordo e até morte.

Muita gente, nesta Copa, dará asas, mais uma vez, às mandingas, crenças, crendices e superstições, como vestir determinada roupa, sentar-se nos mesmos lugares, cruzar os dedos, fazer o sinal da cruz, beber cerveja de uma só marca, acender velas, bater três vezes na madeira, fazer promessas e orar como nunca para ver a seleção canarinha ganhar. E esta deverá entrar nos gramados com o pé direito.